Tudo que escrevemos

Isto sinto e isto escrevo Perfeitamente sabedor e sem que não veja Que são cinco horas do amanhecer e que o sol , que ainda não mostrou a cabeça Por cima do muro do horizonte, Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos Agarrando o cimo do muro Do horizonte cheio de montes baixos. Fernando Pessoa

sexta-feira, abril 14, 2006

Carta de despedida


Carta de despedida


Ciúmes da outra cidade.
Que o consome e o afasta tão terminantemente de mim
Ciúmes daquela que com seus prédios esquecidos o faz distante e reprimido,
Respiro fundo no ritmo das ondas que só levam e nunca trazem a sua presença.
Só restam conchas, caramujos, castelos de areia , mas as ondas fazem questão de desfazer minhas construções tão findas.
Agora é essa cidade vizinha e amiga que tem braços de sereia e o faz tão esquecido.
Resigno-me.
Não posso esquecê-lo.
Meus sonhos o aquecem.,os seus acabam por me despertar como a fúria dos pesadelos.
Retiro-me para um espaço secreto onde você não terá mais a senha

Você agora será um a mais no rio do esquecimento.
Das memórias,
Daquilo que todos nós seremos...pó.
Poeira que sopro ao vento...
Esqueço de ti,
Volto a mim.
Recomponho a minha imagem, que parecia distorcida
Necessito de paz .
Nem sei se para ti algo mudará
Ficarei onde sempre estive , na poeira do chão que você pisa
Mas, cuidado tenho as marcas dos seus dias, acompanhei seus anseios e sonhos.
Mapeei sua alma.
Saboreei seus sonhos e humores,
Convivi com os seus devaneios,
Reparti angústias,
Criei mistérios,
Vivi muito para ti ,
Nada obtive desta empreitada .
Só ventania.
Não importa, saiba que onde estiver agora : um dia eu o amei e se da sua parte não considerou. Só partiu.
Perdeu.
Perdeu muito.
Todos esse sonhos que guardei para ti. Mas, agora chega.
E o bom é que nem ao menos preciso pedir permissão para partir.
Deus o acompanhe.
Silvia Barboza